Olá, pequena Ingrid;
Seu pai sempre se perguntou porque não existiam registros do que estava acontecendo quando ele nasceu. Sua avó e seu avô, além de seus bisavós, sempre contaram como era verbalmente, sem muita precisão, como era de se esperar nos anos 80 e 90. Afinal, eu estava lá, na barriga da minha mãe, mais ou menos na mesma situação que você estava em 1976, e bem, não se tinha o costume de registrar nada assim, de forma tão eficaz.
As pessoas conversavam, debatiam, e até memorizavam os fatos, mas não, nada disso ficava registrado. A internet, então, nem sonhava em nascer (ao menos não no Brasil, os americanos estavam usando ela para fins militares, algo que se chamava "Guerra Fria". Pesquisa que você vai entender). Smartphones? Nem em sonho. Um telefone fixo (que acho que é capaz que você nem venha a conhecer) custava uma fortuna e era usado apenas para fazer ligações mesmo, ou seja, eram tempos muito diferentes, distantes da realidade de hoje.
Você já vai nascer em um mundo hiperconectado, e eu sei lá como isso vai ser. Aliás, você vai nascer na Inglaterra, com o Brexit batendo à porta (também não sei o que vai ser disso, espero que cancelem essa bobagem toda, porque só incomoda a nós, imigrantes). Quando eu e sua mãe chegamos aqui, em 13 de Maio de 2016 (dia da libertação dos escravos no Brasil - nada é por acaso!), a Inglaterra ainda era parte da União Européia, e sim, está um caos seguir as notícias e nem os especialistas sabem ao certo o que vai acontecer.
Enfim, você vai nascer e crescer em um mundo muito diferente do que eu nasci e cresci. Espero estar fazendo a coisa certa. Eu e sua mãe planejamos muito e lutamos muito para chegarmos aqui. A situação no Brasil está horrível. Elegeram (e nos inclua no grupo dos que NÃO queriam este presidente) um nazista! O país já não era um lugar lá muito agradável para se viver (acredite, nós tentamos por anos), mas agora está insuportável! Espero que você goste daqui. O clima não é lá essas coisas (mas o verão brasileiro também não é nada agradável) e dá para se divertir um monte, segundo o que sua mãe me diz das crianças da família para quem ela trabalha. Bem diferente de eu e dela, eu espero que você não seja confinada a uma sala de TV de medo de sair na rua por causa da violência urbana de Campinas.
Mas, para esclarecer o que eu comecei a falar no primeiro parágrafo, um dos motivos pelos quais eu quero deixar este registro aqui não é apenas por uma questão de memória. Eu também não sei por quanto tempo vou estar por aqui. Claro, espero que seja por bastante, mas eu perdi meu pai muito cedo e, por muitas vezes, eu não tinha como saber ao certo nada sobre ele. Quem era, o que pensava, como viveu certas situações, como passou pelos problemas. A gente pode pedir a opinião dos outros, mas ele nunca deixou uma linha escrita sobre nada, risco que eu não vou correr, visto que já escrevi um monte só aqui!
Espero que você possa ler isso junto comigo, e até debater isso no futuro. Vamos rir do que aconteceu com a vida até este ponto e, então, esse blog vai ter cumprido seu propósito. Enquanto isso eu vou tentando deixar um pouco de informação sobre como estão as coisas, isto é, se a Internet não deixar de existir até lá.
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